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12/01/2006 23:15
Sentado na areia, confortavelmente distante das gélidas águas desse mar cáqui e revolto, fica o historiador. De quando em vez levanta-se, se arrisca a atirar algumas pedras na água e pensa influenciar a maré com suas frases de sortilégio. Juntam-se a eles outros curiosos. Começam a travar disputa para ver quem faz quicar mais vezes seus projéteis no mar: eis a academia.
Aqueles que talham suas rendas nos tecidos da memória pensam que a luta contra a morte pode, simplismente, determinar uma vida. Essa receita medíocre não é invenção do homem, mas propriedade sobejamente operada por bactérias, sequóias e leopardos, dignos como são da maestria natural. O que os humanistas fazem é simplesmente se cobrir de novas roupagens, sendo essas, porém, revestidas com os velhos tons cinzentos herdeiros da pátina e do ontem eterno.
Zombam quando digo que desejo estar nos decision making circles no meio da espuma, das ondas e do repuxo. Preferem que eu, a sua imagem e semelhança, fique na areia há ensinar analfabetos a atirar pedrinhas na água.
Ao drama existencialista a técnica supera todo dia: some of these days, you will miss me honey, toca ainda repetidamente em meus ouvidos. Esse é o memento mori da própria memória, algo que ela teima em lançar a sua sombra; algo que ela suplica por deixar no esquecimento. Mas ela morrerá. Mesmo a vontade de viver um dia morrerá.
E o que sobra? Apenas a realidade, tão medíocre que só poderia ser justificada pela ficção. Alias, qualquer tentativa de justificá-la já é, tout court, uma ficção. Então, pois, larguemos o edifício ruído das formas sólidas, entremos no mar, nademos mergulhando por de baixo da espuma, sentindo-a estalar em nosso peito. Afinal, o que há de errado em não desejar ser peão? Excesso de voluntarismo? É a única maneira de tentar fazer da própria vida uma arte. A única forma de justificar a existência sem recorrer aos encantos simplificadores do holismo, do sistema que a tudo engloba; da razão totalitária. É a forma mais plausível de se incluir o indivíduo (e não apenas aquela entidade mais do que abstrata, o homem) dentro do mar. Afinal, toda obra de arte começa por ter um nome.
enviada por hulky
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