No cinza do cotidiano













25/08/2005 15:28
Da vontade do passado viver

Não posso dormir. Estou ansioso demais para relaxar e, embora cansado, minha vontade de refletir é mais forte do que qualquer sono que posso ter. Um vento gélido sussurra lá fora.
Há um prédio antigo em frente ao meu edifício. O pórtico é datado de 1924 – antigo, é claro, para os padrões do meu bairro. Nesse sobrado funciona uma loja de antiguidades, que aí existe desde que sou criança. É um casarão azul com traços coloniais. Um prédio frio e escuro. Este ano me formo em história e sequer estive no antiquário que bate de frente com minha casa. Assim, por acaso, é a primeira vez que o lugar em atraí.
Essa noite é especial. O ar gelado faz balançar a placa do casarão e dele reverbera um som metálico, quase fantasmagórico. Não sei se algo intenta despertar os espíritos do passado, mas certamente os atiçou dentro de mim.
A placa de metal, pesada e ruidosa, transforma-se ela mesmo em um desagradável som da infância. Lembro-me de um desenho do Pica-Pau, em que o malandrinho não conseguia dormir por causa do ruído de um outdoor que havia em frente a sua janela. A trilha do desenho era ótima, tocava Wagner. Seria o Walter Lanz nazista? Juro que se um dia resolver virar judeu, processo ele por anti-semitismo.
O vento frio e o barulho da placa fazem-me acordar desse devaneio ridículo e pueril. A única coisa que quebra o ar romanticamente assombroso da situação é o canto desses pássaros birutas, atormentados pelas luzes da rua e que acreditam já ter se feito o dia.
Na verdade sou tão estranho quanto eles: também não consigo dormir. Mas não sei o porquê, e lamento enquanto eles cantam. Estou engaiolado, eles, livres, há cantarolar.
Fico algum tempo deitado no chão da sala, nesse tapete poeirento, e da janela de frente ao casarão azul imagino que na verdade os postes da rua não fazem lá muita luz. Volto minhas atenções para o prédio ao lado do tal antiquário. É uma clínica de cirurgia plástica, tem um outdoor luminosíssimo e escrito em tons berrantes “rejuvenescer: cirurgias a raios lazer, pálpebras, nariz, mamas, abdômen, lipoaspiração, carboxiterapia, peerlings”. Olhar para essa merda me deixou quase cego. Mas acabei percebendo que é ela a fonte que ilumina palidamente o aposentou em que estou, que me permite conseguir escrever. Terá acordado também os pássaros?
Vou deitar. Presto atenção no barulho da placa, no canto dos pássaros e...

enviada por hulky






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